19/09/2009
04/09/2009
Resenha sobre o livro Creating Modern Capitalism
O livro analisa a criação das diversas formas do capitalismo moderno e como ele tem evoluído ao longo do tempo em quatro grandes nações que obtiveram êxito com o processo de industrialização: Inglaterra, Alemanha, EUA e Japão.
A obra é fruto de três anos de pesquisa e colaboração de oito autores da Harvard Business School, sob a coordenação editorial do professor emérito de História Econômica, Thomas K. McCraw. Ele atualmente pesquisa sobre a concorrência e as políticas desenvolvidas por empresas e por gestores de governos em vários países e, para tanto, se baseia em inúmeros elementos das idéias de Schumpeter sobre o capitalismo, o empreendedorismo e a inovação. O livro é composto de quatorze capítulos sendo que destes, quatro abrangem a evolução histórica do capitalismo em cada país e as distintas características nacionais que permitiram a estes países uma reação pró-ativa às três Revoluções Industriais. Os demais capítulos apresentam estudos de casos de grandes companhias e de bibliografias de empresários renomáveis que conseguiram identificar nas transformações econômicas, dos respectivos países, oportunidades que podiam ser exploradas, o que fez das suas empresas destaque na economia global.
O editor do livro, Thomas K. McCraw, por seguir uma linha shumpeteriana enfatiza a fundamentação histórica como a perspectiva fundamental para analisar os fenômenos econômicos, portanto, a obra possui acima de elementos teóricos e estatísticos um caráter histórico. Neste sentido, o estudo oferece a oportunidade ao leitor de conhecer, de uma forma geral, dados relevantes da história econômica moderna. A linguagem é simples o que permite uma leitura fluente até mesmo para um leitor iniciante.
Antes de o autor iniciar a análise sobre os aspectos de como ocorreu o crescimento repentino na era capitalista de cada economia selecionada pelo trabalho, é possível observar um série de questões críticas que McCraw levanta ao longo do prefácio e da introdução, como: O que é o capitalismo e quais as características presentes na lógica capitalista? O que é capital? Que tipo de governo está implícito em uma economia capitalista? A discussão em torno destes questionamentos se faz bastante interessante e leva a compreensão do capitalismo moderno como produto de ideias, aspirações e esforços individuais e como um sistema flexível e adaptável a diversos contextos nacionais. McCraw deixa claro, no primeiro capítulo, que este é o objetivo do livro, mostrar como ideias e estratégias desenvolvidas por diferentes empresários, companhias e governos fizeram quatro economias nacionais prosperarem na criação do capitalismo moderno. Neste sentido, em acordo com a visão Schumpeteriana, o estudo conclui que não importa quão diferentes os ambientes tecnológicos e econômicos podem ser, o crescimento da economia na era capitalista vem da identificação de oportunidades por parte dos empresários e da forma como eles encontram os meios necessários para realizar a sua visão.
O objetivo desta resenha, no entanto, é explicitar como foi desenvolvida somente uma parte do livro: o estudo de caso referente à Inglaterra desde a Primeira Revolução Industrial até a atual era da “Economia da Informação”. Portanto, o foco deste texto estará sobre os três primeiros capítulos posteriores a introdução. Vale dizer, são eles: Josiah Wedgwood e a Primeira Revolução Industrial (capítulo 2); O Capitalismo Inglês e as Três Revoluções Industriais (capítulo 3); Rolls-Royce e o Aumento da Indústria de Alta Tecnologia (capítulo 4).
O capítulo 2 foi escrito por Nancy F. Koehn, professora da Harvard Business School e pesquisadora a cerca da liderança em tempos turbulentos e do impacto social e econômico do empreendedorismo. Este capítulo é sobre como Josiah Wedgwood e seu sócio Thomas Bently administraram os ativos complementares (variedade de artifícios de comercialização) de forma a aproveitar a vantagem advinda da ocupação pioneira no segmento comercial de olaria, consolidando a marca Wedgwood.
O capítulo possui uma sequência lógica bastante concisa, a autora desenvolve uma análise cronológica da vida de Josiah Wedgwood muito bem fundamentada na teoria shumpeteriana. É possível notar que autora sempre remete as atitudes e decisões de Wedgwood às características do empresário schumpeteriano dentro de um contexto histórico-econômico de intensa mudança. Wedgwood passou a maior parte da sua vida desenvolvendo e aprimorando técnicas de produção, inovando não só na forma de recombinar recursos dentro da firma como também no modo de atrair e fidelizar seus clientes, pois juntamente com seu parceiro de negócios, Bentley, perceberam que na sociedade consumista emergente do século XIX, inovações de marketing eram tão importantes quanto inovações tecnológicas na produção. Através dos diversos exemplos apontados pela autora, fica claro que eles foram capazes de observar as transformações sociais que acompanhavam a expansão urbana durante a Primeira Revolução Industrial e de explorar as oportunidades produtivas oferecidas pela expansão do progresso cientifico e econômico.
Estes exemplos permitem a narrativa do capítulo fluir harmoniosamente, nisso Nancy Koehn demonstra grande talento, pois é capaz de associar de maneira simples todas as tomadas de decisão de Wedgwood aos diversos acontecimentos vividos pela Inglaterra desde meados do século XVIII até o século XIX. Desse modo, o capítulo é bastante coerente com o objetivo do livro, na medida em que coloca o empresário como a figura-chave no processo de desenvolvimento do capitalismo, e demonstra como muitas características subjetivas inerentes ao empresário levaram Wedgwood a triunfar na Primeira Revolução Industrial.
Além disso, o capítulo sumariza o processo de expansão econômica e de industrialização vividos não somente pelo setor de olaria, como por diversos outros setores da Inglaterra durante a Primeira Revolução Industrial, através da apresentação de diferentes dados e de várias notas de rodapé. A leitura do capítulo trata-se, portanto, de uma excelente oportunidade para visualizar a tão difundida história do pioneirismo industrial inglês a partir de outro ponto de vista – o do empresário inovador. Esta é uma peculiaridade positiva do texto, a análise histórica da bibliografia de Wedgwood permite ao leitor se posicionar no contexto histórico e visualizar, assim como Wedgwood, as mudanças econômicas e sociais vividas pela Inglaterra como oportunidades produtivas. Apesar da clareza e da objetividade, Nancy Koehn falha ao encerrar o capítulo sem expor uma conclusão com uma síntese das principais ideias ligadas ao objetivo do livro. Muitas observações apresentadas no texto poderiam ter sido fundamentadas na teoria shumpeteriana de forma explícita nesta conclusão, o que tornaria a obra muito mais completa e facilitaria a associação com os capítulos posteriores.
Os capítulos 3 e 4 foram escritos por Peter Botticelli cuja formação acadêmica se baseou na história do capitalismo e da tecnologia. Atualmente, é professor assistente da Harvard Business School e está envolvido em projetos de pesquisa sobre preservação digital e avaliação de registros eletrônicos.
O capítulo 3 é dedicado à discussão, de uma forma geral, das principais características da Inglaterra, bem como, nos diferentes contextos políticos e econômicos ao longo do seu rápido crescimento durante a Primeira Revolução Industrial, do seu apogeu em meados da segunda metade do século XIX, Segunda Rev. Ind., e do seu declínio logo no início da Terceira Rev. Ind.(1940 e 1950). Dessa forma, buscando analisar a evolução do sistema capitalista inglês ao longo das três Revoluções Industriais, o autor divide o capítulo em três grandes partes. A primeira parte relata com clareza a tão conhecida história do pioneirismo da Inglaterra no processo de industrialização e a sua liderança econômica mundial durante a Primeira Revolução Industrial. Assim, o autor apresenta as principais causas, fatos históricos, políticos e econômicos, que propiciaram tal vantagem da Inglaterra ao longo do século XIII e XIX.
Esta primeira parte é bastante condizente com a proposta geral do livro, bem como com o prólogo do capítulo escrito por McCraw. Ficam evidentes as principais condições que alavancaram o processo de industrialização na Inglaterra e percebe-se, claramente, que os fatores institucionais necessários para fomentar o processo inovador estavam mais presentes na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX do que em qualquer outro país. O autor aponta diversos exemplos que mostram o quanto as políticas públicas foram valiosas para reduzir as incertezas e os riscos do ambiente, como também para fornecer incentivos pecuniários ao progresso tecnológico.
A segunda parte do capítulo a qual trata da Segunda Revolução Industrial está intimamente ligada com a primeira. Peter Botticelli dedica a maior parte deste capítulo para demonstrar as mudanças econômicas e políticas ocorridas da Primeira para a Segunda Revolução Industrial que se caracterizaram em transformações na estrutura produtiva e tecnológica do país. O autor mostra que as políticas protecionistas adotadas pelo Parlamento Inglês na Primeira Revolução Industrial não perduraram por muito tempo na Inglaterra e, da mesma forma, a sua posição de liderança competitiva. Ele associa esse declínio da Inglaterra principalmente à adoção de políticas "pró laissez faire" e a rejeição do mercantilismo, que tornaram a economia muito dependente do mercado externo.
Na terceira parte do capítulo o autor perde o foco da análise e não consegue construir uma ligação com as partes anteriores do texto. Não fica muito clara a evolução do sistema capitalista na Inglaterra a partir da Terceira Revolução Industrial. O autor propõe analisar as diversas formas que o capitalismo inglês assumiu no período de 1940 até o presente, no entanto, só apresenta de forma superficial as influências de diferentes modelos de desenvolvimento capitalista sobre as políticas econômicas do país.
A conclusão do capítulo é muito rasa e não reconstrói as principais idéias que o texto propunha discutir, pelo contrário, expõe novas idéias não embasadas no texto na tentativa de ligar o capítulo com os capítulos sobre as demais economias selecionadas no livro. Ou seja, por mais que tenha ficado claro que o desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra dependeu não apenas de inovações tecnológicas, mas principalmente de um conjunto de fatores de ordem técnica, institucional, social e econômica, estas ideias ficam implícitas, não são expostas na conclusão de maneira a facilitar a ligação dos capítulos referentes à Inglaterra. Além disso, esse capítulo não tem a riqueza de informações que se vê em diversos outros livros de história econômica, apresenta somente uma introdução ao debate sobre a posição da Inglaterra nas três Revoluções Industriais.
No capítulo 4, o autor discorre sobre a trajetória tecnológica da empresa Rolls Royce, desde a sua fundação em 1906 e o começo da sua produção de carros em 1907, passando pelo início da produção de motores de aeronaves em 1914, pela abertura do processo de falência em 1971 até a sua privatização em 1989. O capítulo é dedicado, principalmente, à discussão das estratégias que a Rolls Royce adotou para continuar crescendo em um contexto turbulento, marcado por guerras mundiais e por uma intensa disputa entre as empresas do setor automobilístico por participação de mercado.
Ao longo de todo o capítulo, o autor mostra como a estratégia adota por Henry Royce e Charles Rolls sempre foi investir pesado em Pesquisa e Desenvolvimento e concorrer não via preços, mas pela diferenciação dos seus produtos. O método de produção dos luxuosos automóveis era quase inteiramente artesanal e direcionado a um pequeno nicho de mercado. A imagem da Rolls-Royce era associada à primazia pela alta qualidade, performance e durabilidade gerada pela incessante busca de melhorias e inovações, e a companhia resistiu fortemente a idéia de abandonar o seu método de produção exclusivo em prol de métodos de massa ou aderir à fusões com outras empresas do ramo. O autor enfatiza a capacidade dinâmica da Rolls Royce para explorar suas competências internas e desenvolver novas competências diante de mudanças no ambiente externo. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu a demanda por carros novos diminuiu drasticamente e a empresa quase encerrou sua principal fábrica, contudo o autor mostra que Henry Royce reconfigurou suas competências internas e transferiu os conhecimentos técnicos especializados na indústria automotiva para a indústria aeronáutica, de maneira a escapar da dependência do único pequeno mercado e para aproveitar as oportunidades produtivas e de crescimento advindas com a guerra.
Outro aspecto relevante abordado neste capítulo se refere à importância do estímulo dado pelo governo à Rolls Royce nas duas Guerras Mundiais, demonstrando conforme o objetivo do livro a importância de políticas públicas para promover o desenvolvimento tecnológico. O autor apresenta diversos dados da I Guerra Mundial, nos quais é possível identificar a liberação de licenças por parte do governo para o aumento sem precedentes da produção de aeronaves e equipamentos militares pela Rolls Royce. Além disso, durante a II Guerra Mundial o governo passou a estimular o aumento da produção em setores militares através da criação das chamadas “fábricas sombras”, que seriam como empresas terceirizadas para a produção em massa dos produtos demandados pela guerra. Neste ponto, o autor destaca a importância da liderança de Hives e das estratégicas adotadas por este empresário durante a II Guerra Mundial. Esta permitiu um grande aumento da demanda por motores de aeronaves e exigiu uma forte reestruturação e expansão da firma. Hives resistiu à pressão pela adoção do método de produção de massa, pesquisando assim, um sistema em que ele poderia atender toda a escala de produção necessária para a guerra. E realizou esta tarefa através da subcontratação de determinadas fases do processo de produção de motores, assegurando a concepção da empresa de alta qualidade. O autor aponta que neste período a estratégia básica para a construção de motores aeronáuticos foi controlar as duas extremidades do processo de produção: a concepção de engenharia, juntamente com a fase de testes e instalação e com a fase de serviços e reparação. Para motores aeronáuticos, estas três funções são as mais exigentes tecnicamente e eram as que a Rolls Royce tinha mais habilidades e experiência para liderar em vez de seguir.
É interessante destacar, que a leitura deste capítulo permite quase que instantaneamente a associação das figuras de Henry Royce, Charles Rolls e Hives a de Wedgwood (capítulo 2), o que leva a conclusão de que o desenvolvimento da alta tecnologia e o crescimento das empresas está, primordialmente, condicionado à capacidade dos empresários de enxergar as oportunidades produtivas e tecnológicas. Assim, a análise deste capítulo em conjunto com o primeiro permite notar que as histórias dos empresários e das firmas demonstram o incessante esforço de adaptação e melhoria que fazem parte da natureza humana, mas são exageradas pelas pressões capitalistas. Além disso, as histórias das empresas revelam alguns importantes insights sobre as próprias atividades das empresas - a importância da engenharia do produto e de processo, das inovações técnicas e organizacionais, e a necessidade de tornar os produtos vendáveis (administração de ativos complementares). Estas observações e comparações poderiam ter sido conjecturadas com as informações do capítulo 3, referentes à análise sobre a Inglaterra, e abordadas em uma conclusão do capítulo (novamente não é realizada) ou na conclusão geral elaborada pelo organizador McCraw. No entanto, isto não é executado, e muitas ideias entre os capítulos que poderiam ter sido enfatizadas e expostas de maneira melhor ficaram soltas, desconexas.
Os capítulos do livro apresentados brevemente nesta resenha apresentam uma análise histórica concisa, clara e objetiva que consegue comprovar a proposta inicial do texto de mostrar como empresários, companhias e governos impulsionaram o capitalismo e propiciaram as condições econômicas e sociais que precederam e acompanharam capitalismo. Todavia, cada capítulo pode ser lido isoladamente sem prejudicar a leitura dos demais, demonstrando que não há conectividade entre os mesmos. A sensação passada para o leitor é de que os capítulos são relatos de pesquisa realizados isoladamente e sem o mesmo foco de análise. Fica evidente que os prólogos elaborados por McCraw são uma tentativa de preencher forçosamente essa lacuna do livro, na medida em que procuram remeter ideias que muitas vezes aparecem superficialmente nos capítulos com o objetivo de possibilitar a associação entre eles.
Analisando cada capítulo individualmente percebe-se que houve um esforço por parte dos autores para sistematizar os diversos dados coletados e para colocá-los em uma sequência lógica. No entanto, ao analisar a sequência dos três capítulos em conjunto, nota-se uma falta de coerência ou um erro de estratégia na ordem da exposição dos mesmos. Seria mais proveitoso para a leitura do livro, e até mesmo mais lógico, se o capítulo sobre a estrutura da Inglaterra e sobre a conjuntura em torno da mesma (capítulo 3) fosse apresentado tanto antes do capítulo sobre a Rolls Royce como antes do capítulo sobre Wedgwood, pois contextualizaria inicialmente ambas as empresas e os empresários às mudanças correntes na Inglaterra, possibilitando uma leitura mais direcionada e fluente dos capítulos posteriores.
Apesar das tímidas conclusões do livro e da ausência de conexão entre os capítulos, o livro é bastante útil por relatar de forma sintética e objetiva diversos fatos importantes do processo de industrialização e do avanço tecnológico na Inglaterra, que podem em todo tempo ser associados com elementos da teoria schumpeteriana.
A obra é fruto de três anos de pesquisa e colaboração de oito autores da Harvard Business School, sob a coordenação editorial do professor emérito de História Econômica, Thomas K. McCraw. Ele atualmente pesquisa sobre a concorrência e as políticas desenvolvidas por empresas e por gestores de governos em vários países e, para tanto, se baseia em inúmeros elementos das idéias de Schumpeter sobre o capitalismo, o empreendedorismo e a inovação. O livro é composto de quatorze capítulos sendo que destes, quatro abrangem a evolução histórica do capitalismo em cada país e as distintas características nacionais que permitiram a estes países uma reação pró-ativa às três Revoluções Industriais. Os demais capítulos apresentam estudos de casos de grandes companhias e de bibliografias de empresários renomáveis que conseguiram identificar nas transformações econômicas, dos respectivos países, oportunidades que podiam ser exploradas, o que fez das suas empresas destaque na economia global.
O editor do livro, Thomas K. McCraw, por seguir uma linha shumpeteriana enfatiza a fundamentação histórica como a perspectiva fundamental para analisar os fenômenos econômicos, portanto, a obra possui acima de elementos teóricos e estatísticos um caráter histórico. Neste sentido, o estudo oferece a oportunidade ao leitor de conhecer, de uma forma geral, dados relevantes da história econômica moderna. A linguagem é simples o que permite uma leitura fluente até mesmo para um leitor iniciante.
Antes de o autor iniciar a análise sobre os aspectos de como ocorreu o crescimento repentino na era capitalista de cada economia selecionada pelo trabalho, é possível observar um série de questões críticas que McCraw levanta ao longo do prefácio e da introdução, como: O que é o capitalismo e quais as características presentes na lógica capitalista? O que é capital? Que tipo de governo está implícito em uma economia capitalista? A discussão em torno destes questionamentos se faz bastante interessante e leva a compreensão do capitalismo moderno como produto de ideias, aspirações e esforços individuais e como um sistema flexível e adaptável a diversos contextos nacionais. McCraw deixa claro, no primeiro capítulo, que este é o objetivo do livro, mostrar como ideias e estratégias desenvolvidas por diferentes empresários, companhias e governos fizeram quatro economias nacionais prosperarem na criação do capitalismo moderno. Neste sentido, em acordo com a visão Schumpeteriana, o estudo conclui que não importa quão diferentes os ambientes tecnológicos e econômicos podem ser, o crescimento da economia na era capitalista vem da identificação de oportunidades por parte dos empresários e da forma como eles encontram os meios necessários para realizar a sua visão.
O objetivo desta resenha, no entanto, é explicitar como foi desenvolvida somente uma parte do livro: o estudo de caso referente à Inglaterra desde a Primeira Revolução Industrial até a atual era da “Economia da Informação”. Portanto, o foco deste texto estará sobre os três primeiros capítulos posteriores a introdução. Vale dizer, são eles: Josiah Wedgwood e a Primeira Revolução Industrial (capítulo 2); O Capitalismo Inglês e as Três Revoluções Industriais (capítulo 3); Rolls-Royce e o Aumento da Indústria de Alta Tecnologia (capítulo 4).
O capítulo 2 foi escrito por Nancy F. Koehn, professora da Harvard Business School e pesquisadora a cerca da liderança em tempos turbulentos e do impacto social e econômico do empreendedorismo. Este capítulo é sobre como Josiah Wedgwood e seu sócio Thomas Bently administraram os ativos complementares (variedade de artifícios de comercialização) de forma a aproveitar a vantagem advinda da ocupação pioneira no segmento comercial de olaria, consolidando a marca Wedgwood.
O capítulo possui uma sequência lógica bastante concisa, a autora desenvolve uma análise cronológica da vida de Josiah Wedgwood muito bem fundamentada na teoria shumpeteriana. É possível notar que autora sempre remete as atitudes e decisões de Wedgwood às características do empresário schumpeteriano dentro de um contexto histórico-econômico de intensa mudança. Wedgwood passou a maior parte da sua vida desenvolvendo e aprimorando técnicas de produção, inovando não só na forma de recombinar recursos dentro da firma como também no modo de atrair e fidelizar seus clientes, pois juntamente com seu parceiro de negócios, Bentley, perceberam que na sociedade consumista emergente do século XIX, inovações de marketing eram tão importantes quanto inovações tecnológicas na produção. Através dos diversos exemplos apontados pela autora, fica claro que eles foram capazes de observar as transformações sociais que acompanhavam a expansão urbana durante a Primeira Revolução Industrial e de explorar as oportunidades produtivas oferecidas pela expansão do progresso cientifico e econômico.
Estes exemplos permitem a narrativa do capítulo fluir harmoniosamente, nisso Nancy Koehn demonstra grande talento, pois é capaz de associar de maneira simples todas as tomadas de decisão de Wedgwood aos diversos acontecimentos vividos pela Inglaterra desde meados do século XVIII até o século XIX. Desse modo, o capítulo é bastante coerente com o objetivo do livro, na medida em que coloca o empresário como a figura-chave no processo de desenvolvimento do capitalismo, e demonstra como muitas características subjetivas inerentes ao empresário levaram Wedgwood a triunfar na Primeira Revolução Industrial.
Além disso, o capítulo sumariza o processo de expansão econômica e de industrialização vividos não somente pelo setor de olaria, como por diversos outros setores da Inglaterra durante a Primeira Revolução Industrial, através da apresentação de diferentes dados e de várias notas de rodapé. A leitura do capítulo trata-se, portanto, de uma excelente oportunidade para visualizar a tão difundida história do pioneirismo industrial inglês a partir de outro ponto de vista – o do empresário inovador. Esta é uma peculiaridade positiva do texto, a análise histórica da bibliografia de Wedgwood permite ao leitor se posicionar no contexto histórico e visualizar, assim como Wedgwood, as mudanças econômicas e sociais vividas pela Inglaterra como oportunidades produtivas. Apesar da clareza e da objetividade, Nancy Koehn falha ao encerrar o capítulo sem expor uma conclusão com uma síntese das principais ideias ligadas ao objetivo do livro. Muitas observações apresentadas no texto poderiam ter sido fundamentadas na teoria shumpeteriana de forma explícita nesta conclusão, o que tornaria a obra muito mais completa e facilitaria a associação com os capítulos posteriores.
Os capítulos 3 e 4 foram escritos por Peter Botticelli cuja formação acadêmica se baseou na história do capitalismo e da tecnologia. Atualmente, é professor assistente da Harvard Business School e está envolvido em projetos de pesquisa sobre preservação digital e avaliação de registros eletrônicos.
O capítulo 3 é dedicado à discussão, de uma forma geral, das principais características da Inglaterra, bem como, nos diferentes contextos políticos e econômicos ao longo do seu rápido crescimento durante a Primeira Revolução Industrial, do seu apogeu em meados da segunda metade do século XIX, Segunda Rev. Ind., e do seu declínio logo no início da Terceira Rev. Ind.(1940 e 1950). Dessa forma, buscando analisar a evolução do sistema capitalista inglês ao longo das três Revoluções Industriais, o autor divide o capítulo em três grandes partes. A primeira parte relata com clareza a tão conhecida história do pioneirismo da Inglaterra no processo de industrialização e a sua liderança econômica mundial durante a Primeira Revolução Industrial. Assim, o autor apresenta as principais causas, fatos históricos, políticos e econômicos, que propiciaram tal vantagem da Inglaterra ao longo do século XIII e XIX.
Esta primeira parte é bastante condizente com a proposta geral do livro, bem como com o prólogo do capítulo escrito por McCraw. Ficam evidentes as principais condições que alavancaram o processo de industrialização na Inglaterra e percebe-se, claramente, que os fatores institucionais necessários para fomentar o processo inovador estavam mais presentes na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX do que em qualquer outro país. O autor aponta diversos exemplos que mostram o quanto as políticas públicas foram valiosas para reduzir as incertezas e os riscos do ambiente, como também para fornecer incentivos pecuniários ao progresso tecnológico.
A segunda parte do capítulo a qual trata da Segunda Revolução Industrial está intimamente ligada com a primeira. Peter Botticelli dedica a maior parte deste capítulo para demonstrar as mudanças econômicas e políticas ocorridas da Primeira para a Segunda Revolução Industrial que se caracterizaram em transformações na estrutura produtiva e tecnológica do país. O autor mostra que as políticas protecionistas adotadas pelo Parlamento Inglês na Primeira Revolução Industrial não perduraram por muito tempo na Inglaterra e, da mesma forma, a sua posição de liderança competitiva. Ele associa esse declínio da Inglaterra principalmente à adoção de políticas "pró laissez faire" e a rejeição do mercantilismo, que tornaram a economia muito dependente do mercado externo.
Na terceira parte do capítulo o autor perde o foco da análise e não consegue construir uma ligação com as partes anteriores do texto. Não fica muito clara a evolução do sistema capitalista na Inglaterra a partir da Terceira Revolução Industrial. O autor propõe analisar as diversas formas que o capitalismo inglês assumiu no período de 1940 até o presente, no entanto, só apresenta de forma superficial as influências de diferentes modelos de desenvolvimento capitalista sobre as políticas econômicas do país.
A conclusão do capítulo é muito rasa e não reconstrói as principais idéias que o texto propunha discutir, pelo contrário, expõe novas idéias não embasadas no texto na tentativa de ligar o capítulo com os capítulos sobre as demais economias selecionadas no livro. Ou seja, por mais que tenha ficado claro que o desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra dependeu não apenas de inovações tecnológicas, mas principalmente de um conjunto de fatores de ordem técnica, institucional, social e econômica, estas ideias ficam implícitas, não são expostas na conclusão de maneira a facilitar a ligação dos capítulos referentes à Inglaterra. Além disso, esse capítulo não tem a riqueza de informações que se vê em diversos outros livros de história econômica, apresenta somente uma introdução ao debate sobre a posição da Inglaterra nas três Revoluções Industriais.
No capítulo 4, o autor discorre sobre a trajetória tecnológica da empresa Rolls Royce, desde a sua fundação em 1906 e o começo da sua produção de carros em 1907, passando pelo início da produção de motores de aeronaves em 1914, pela abertura do processo de falência em 1971 até a sua privatização em 1989. O capítulo é dedicado, principalmente, à discussão das estratégias que a Rolls Royce adotou para continuar crescendo em um contexto turbulento, marcado por guerras mundiais e por uma intensa disputa entre as empresas do setor automobilístico por participação de mercado.
Ao longo de todo o capítulo, o autor mostra como a estratégia adota por Henry Royce e Charles Rolls sempre foi investir pesado em Pesquisa e Desenvolvimento e concorrer não via preços, mas pela diferenciação dos seus produtos. O método de produção dos luxuosos automóveis era quase inteiramente artesanal e direcionado a um pequeno nicho de mercado. A imagem da Rolls-Royce era associada à primazia pela alta qualidade, performance e durabilidade gerada pela incessante busca de melhorias e inovações, e a companhia resistiu fortemente a idéia de abandonar o seu método de produção exclusivo em prol de métodos de massa ou aderir à fusões com outras empresas do ramo. O autor enfatiza a capacidade dinâmica da Rolls Royce para explorar suas competências internas e desenvolver novas competências diante de mudanças no ambiente externo. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu a demanda por carros novos diminuiu drasticamente e a empresa quase encerrou sua principal fábrica, contudo o autor mostra que Henry Royce reconfigurou suas competências internas e transferiu os conhecimentos técnicos especializados na indústria automotiva para a indústria aeronáutica, de maneira a escapar da dependência do único pequeno mercado e para aproveitar as oportunidades produtivas e de crescimento advindas com a guerra.
Outro aspecto relevante abordado neste capítulo se refere à importância do estímulo dado pelo governo à Rolls Royce nas duas Guerras Mundiais, demonstrando conforme o objetivo do livro a importância de políticas públicas para promover o desenvolvimento tecnológico. O autor apresenta diversos dados da I Guerra Mundial, nos quais é possível identificar a liberação de licenças por parte do governo para o aumento sem precedentes da produção de aeronaves e equipamentos militares pela Rolls Royce. Além disso, durante a II Guerra Mundial o governo passou a estimular o aumento da produção em setores militares através da criação das chamadas “fábricas sombras”, que seriam como empresas terceirizadas para a produção em massa dos produtos demandados pela guerra. Neste ponto, o autor destaca a importância da liderança de Hives e das estratégicas adotadas por este empresário durante a II Guerra Mundial. Esta permitiu um grande aumento da demanda por motores de aeronaves e exigiu uma forte reestruturação e expansão da firma. Hives resistiu à pressão pela adoção do método de produção de massa, pesquisando assim, um sistema em que ele poderia atender toda a escala de produção necessária para a guerra. E realizou esta tarefa através da subcontratação de determinadas fases do processo de produção de motores, assegurando a concepção da empresa de alta qualidade. O autor aponta que neste período a estratégia básica para a construção de motores aeronáuticos foi controlar as duas extremidades do processo de produção: a concepção de engenharia, juntamente com a fase de testes e instalação e com a fase de serviços e reparação. Para motores aeronáuticos, estas três funções são as mais exigentes tecnicamente e eram as que a Rolls Royce tinha mais habilidades e experiência para liderar em vez de seguir.
É interessante destacar, que a leitura deste capítulo permite quase que instantaneamente a associação das figuras de Henry Royce, Charles Rolls e Hives a de Wedgwood (capítulo 2), o que leva a conclusão de que o desenvolvimento da alta tecnologia e o crescimento das empresas está, primordialmente, condicionado à capacidade dos empresários de enxergar as oportunidades produtivas e tecnológicas. Assim, a análise deste capítulo em conjunto com o primeiro permite notar que as histórias dos empresários e das firmas demonstram o incessante esforço de adaptação e melhoria que fazem parte da natureza humana, mas são exageradas pelas pressões capitalistas. Além disso, as histórias das empresas revelam alguns importantes insights sobre as próprias atividades das empresas - a importância da engenharia do produto e de processo, das inovações técnicas e organizacionais, e a necessidade de tornar os produtos vendáveis (administração de ativos complementares). Estas observações e comparações poderiam ter sido conjecturadas com as informações do capítulo 3, referentes à análise sobre a Inglaterra, e abordadas em uma conclusão do capítulo (novamente não é realizada) ou na conclusão geral elaborada pelo organizador McCraw. No entanto, isto não é executado, e muitas ideias entre os capítulos que poderiam ter sido enfatizadas e expostas de maneira melhor ficaram soltas, desconexas.
Os capítulos do livro apresentados brevemente nesta resenha apresentam uma análise histórica concisa, clara e objetiva que consegue comprovar a proposta inicial do texto de mostrar como empresários, companhias e governos impulsionaram o capitalismo e propiciaram as condições econômicas e sociais que precederam e acompanharam capitalismo. Todavia, cada capítulo pode ser lido isoladamente sem prejudicar a leitura dos demais, demonstrando que não há conectividade entre os mesmos. A sensação passada para o leitor é de que os capítulos são relatos de pesquisa realizados isoladamente e sem o mesmo foco de análise. Fica evidente que os prólogos elaborados por McCraw são uma tentativa de preencher forçosamente essa lacuna do livro, na medida em que procuram remeter ideias que muitas vezes aparecem superficialmente nos capítulos com o objetivo de possibilitar a associação entre eles.
Analisando cada capítulo individualmente percebe-se que houve um esforço por parte dos autores para sistematizar os diversos dados coletados e para colocá-los em uma sequência lógica. No entanto, ao analisar a sequência dos três capítulos em conjunto, nota-se uma falta de coerência ou um erro de estratégia na ordem da exposição dos mesmos. Seria mais proveitoso para a leitura do livro, e até mesmo mais lógico, se o capítulo sobre a estrutura da Inglaterra e sobre a conjuntura em torno da mesma (capítulo 3) fosse apresentado tanto antes do capítulo sobre a Rolls Royce como antes do capítulo sobre Wedgwood, pois contextualizaria inicialmente ambas as empresas e os empresários às mudanças correntes na Inglaterra, possibilitando uma leitura mais direcionada e fluente dos capítulos posteriores.
Apesar das tímidas conclusões do livro e da ausência de conexão entre os capítulos, o livro é bastante útil por relatar de forma sintética e objetiva diversos fatos importantes do processo de industrialização e do avanço tecnológico na Inglaterra, que podem em todo tempo ser associados com elementos da teoria schumpeteriana.
20/07/2009
19/07/2009

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
Quando esta Frio
Alberto Caeiro
12/07/2009
10/04/2009
The Image - Kenneth Boulding
Transcrevo aqui a tradução da introdução deste livro belissímo que descreve de forma muita clara a subjetvidade da imagem, da mente humana e do conhecimento.
Enquanto permaneço sentado em minha escrivaninha, sei onde me encontro. Vejo diante de mim uma janela; além dela algumas árvores; mais além os telhados vermelhos do campus da Universidade de Stanford; depois as árvores e os topos dos telhados que distinguem a cidade de Palo Alto; depois deles os montes dourados da cordilheira Hamilton. Eu sei, porém, mais do que eu vejo. Atrás de mim, apesar de não estar olhando nessa direção, eu sei que existe uma janela, e diante dela o pequeno campus do Centro de Estudos Avançados das Ciências do Comportamento; depois dele, a serra costeira; depois dela o Oceano Pacífico. Olhando de novo a minha frente, eu sei que depois das montanhas que delimitam meu horizonte atual existe um amplo vale; depois dele uma cadeia de montanhas ainda mais alta; depois delas outras montanhas, cadeia após cadeia, até chegar às Montanhas Rochosas; além delas as Grandes Planícies e o Mississipi; depois os montes Alleghenies; depois a costa leste; depois o Oceano Atlântico; depois a Europa ; depois a Ásia. Eu sei, ainda mais, que se avançar cada vez mais vou voltar ao lugar onde me encontro agora. Em outras palavras, tenho uma imagem da terra redonda. Eu a vejo como um globo. Alguns detalhes são meio embaçados. Não tenho certeza, por exemplo, se Tanganyika fica ao norte ou ao sul de Nyasaland. Provavelmente não seria capaz de desenhar um bom mapa da Indonésia mas tenho uma idéia razoável sobre onde tudo se localiza na face desse globo. Olhando ainda mais adiante, eu visualizo o globo como um grãozinho circulando ao redor de uma estrela brilhante que é o sol, na companhia de muitos outros grãozinhos parecidos, os planetas. Olhando mais longe ainda, vejo nossa estrela o sol como um membro, junto com milhões e milhões de outros, na Galáxia. E olhando ainda mais longe, visualizo a Galáxia como uma entre milhões e milhões de outras no universo.
Eu não apenas me localizo no espaço, eu me localizo também no tempo. Sei que vim para a Califórnia há cerca de um ano, e que partirei em cerca de três semanas. Sei que morei em vários lugares diferentes em tempos diferentes. Sei que há cerca de dez anos uma grande guerra chegou ao fim e que há uns quarenta anos atrás outra grande guerra terminou. Algumas datas são significativas: 1776, 1620, 1066. Tenho uma imagem em minha mente do processo de formação da terra, da longa história do tempo geológico, da breve história da humanidade. As grandes civilizações do passado passam diante da minha tela mental. Muitas das imagens são vagas, mas a Grécia vem depois de Creta, Roma vem depois da Assíria.
Eu não tenho apenas um lugar no espaço e no tempo, eu me coloco num campo de relações pessoais. Eu não apenas sei onde e quando eu estou, eu sei até certo ponto quem eu sou. Eu sou um professor em uma grande universidade pública. Isso quer dizer que em Setembro eu irei para uma sala de aula e espero encontrar alguns alunos nela e começarei a falar para eles, e ninguém vai se surpreender com isso. Eu espero, o que é talvez ainda mais agradável, que os cheques do meu salário chegarão regularmente da universidade. Eu espero que quando abrir minha boca em certas ocasiões as pessoas irão ouvir. Eu sei, além disso, que eu sou um marido e um pai, que exitem pessoas que reagirão a mim com afeto e aos quais eu reagirei de modo semelhante. Sei também que tenho amigos, que existem casas aqui, ali e em toda parte, às quais eu posso ir e onde serei bem-vindo e reconhecido e recebido como hóspede. Eu pertenço a várias associações. Existem lugares onde eu vou, e será reconhecido que se espera que eu me comporte de certa maneira. Eu posso me sentar para adorar, posso fazer um discurso, posso ouvir um concerto, posso fazer várias espécies de coisas.
Eu não só estou localizado no espaço, no tempo e em relacionamentos pessoais, eu também estou localizado no mundo da natureza, num mundo de como as coisas funcionam. Sei que quando entro no meu carro existem certas coisas que devo fazer para dar a partida; algumas coisas que devo fazer para sair do estacionamento; algumas coisas que devo fazer para dirigir até minha casa. Sei que se pular de um lugar alto provavelmente vou me machucar. Sei que existem algumas coisas que não são boas para eu comer ou beber. Sei que certas precauções são recomendáveis para manter uma boa saúde. Sei que se me inclinar demais para trás em minha cadeira, enquanto estou aqui sentado diante de minha escrivaninha, provavelmente levarei um tombo. Vivo, em outras palavras, em um mundo de relações razoavelmente estáveis, um mundo de "se" e "então", de "se eu fizer isto, então aquilo vai acontecer."
Finalmente, estou localizado no meio de um mundo de percepções e emoções sutis. Às vezes estou eufórico, às vezes um pouco deprimido, às vezes feliz, às vezes triste, às vezes inspirado, às vezes pedante. Estou aberto a percepções sutis de uma presença além do mundo do espaço, do tempo e dos sentidos.
Tudo aquilo de que venho falando até agora é conhecimento. Conhecimento talvez não seja uma boa palavra para isso. Talvez fosse melhor falar de minha Imagem do mundo. Conhecimento tem uma implicação de validade, de verdade. Eu estou falando daquilo que eu acredito ser verdade, meu conhecimento subjetivo. É essa Imagem que geralmente governa meu comportamento. Em cerca de uma hora eu me levantarei, sairei de meu esscritório, irei para o carro, seguirei até minha casa, brincarei com as crianças, comerei o jantar, talvez leia um livro, irei para a cama. Posso predizer esse comportamento com um precisão razoável por causa do conhecimento que tenho: o conhecimento de que tenho uma casa não muito distante, à qual estou acostumado a ir. É claro que a previsão pode não se realizar. Pode haver um terremoto, posso sofrer um acidente com o carro no caminho, ao chegar em casa posso descobrir que minha família saiu inesperadamente. Centenas de coisas podem acontecer. Quando cada uma dessas coisas acontece, no entanto, ela altera a estrutura do meu conhecimento ou da minha imagem. E quando a minha imagem muda, eu me comporto de acordo com isso. A primeira tese deste trabalho, portanto, é que o comportamento depende da imagem.
O que, então, determina a imagem? Esta é a questão central deste trabalho. Não é uma questão que ele poderá responder. Mesmo assim, as respostas que eu puder oferecer serão fundamentais para a compreensão de como a vida e a sociedade funcionam realmente. Uma coisa é clara. A imagem é construída como um resultado de todas as experiências passadas do dono da imagem. Parte da imagem é a história da própria imagem. Em um certo estágio a imagem, creio eu, consiste apenas em borrões e movimentos indistintos. A partir do nascimento, senão antes, existe um fluxo constante de mensagens penetrando no organismo através dos sentidos. No começo podem ser apenas meras luzes e ruídos indistintos. À medida que a criança cresce, porém, ele gradativamente vão sendo distinguidos como pessoas e objetos. Ela começa a perceber a si mesma como um objeto no meio de um mundo de objetos. A imagem consciente tem assim seu princípio. Na infância o mundo é uma casa, talvez algumas ruas e um parque. Quando a criança cresce mais, sua imagem do mundo se expande. Ela se vê em uma cidade, um país, um planeta. Vê a si mesma em uma rede cada vez mais complexa de relações pessoais. Cada vez que uma nova mensagem chega a ela, é provável que sua imagem seja alterada por ela de alguma forma, e à medida que a imagem muda, seus padrões de comportamento de forma correspondente.
Precisamos distinguir cuidadosamente a imagem das mensagens que chegam a ela. As mensagens consistem em informações no sentido em que são experiências estruturadas. O significado de uma mensagem é a mudança que ela produz na imagem.
Quando uma mensagem atinge uma imagem pode acontecer uma de três coisas. Primeiro, a imagem pode permanecer indiferente. Se pensarmos na imagem como uma estrutura dispersa, semelhante a uma molécula, podemos imaginar que a mensagem passou direto sem bater em nada. Isto é o que acontece com a grande maioria das mensagens. Estou constantemente recebendo mensagens, por exemplo, dos meus olhos e ouvidos, enquanto estou sentado a minha mesa, mas essas mensagens são ignoradas por mim. Existe, por exemplo, um barulho de carpinteiros trabalhando. Eu sei, porém que um edifício está sendo construído nas redondezas e o fato de ouvir esse barulho não acrescenta nada a essa imagem. Na verdade, eu nem escuto o barulho a menos que me esforce para ouvi-lo, de tanto que me acostumei a ele. Quando o barulho para, porém, eu o percebo. Esta informação muda minha imagem do universo. Percebo que já são cinco horas e que é hora de ir para casa. A imagem despertou minha atenção, por assim dizer, para a minha posição no tempo, e eu fiz uma nova avaliação dessa posição. Este é o segundo efeito possível ou impacto que a mensagem exerce sobre a imagem. Pode mudar a imagem de uma forma regular e bem definida, que pode ser descrita como uma simples adição. Suponhamos, por exemplo, para voltar a um exemplo anterior, que eu consulte um atlas e descubra exatamente a relação entre Nyasaland e Tanganyika. Eu teria feito uma adição ao meu conhecimento ou à minha imagem; não terei, porém, feito nenhuma revisão fundamental nela. Eu ainda retrato o mundo quase como eu o retratava anteriormente. Alguma coisa que estava mais vaga antes tornou-se agora mais clara.
Existe, porém, um terceiro tipo de mudança da imagem que pode ser descrita como uma mudança revolucionária. Algumas vezes a mensagem atinge alguma espécie de núcleo ou estrutura de suporte da imagem, e a coisa toda muda radicalmente. Um exemplo espetacular dessa mudança é a conversão. Uma pessoa pode se achar muito correta e, de uma hora para outra, ouve um pregador que a convence de que na verdade aquela vida, com a qual ela estava antes muito satisfeita, é vazia e não tem nenhum valor. As palavras do pregador provocam uma reformulação radical da imagem que a pessoa tem de si mesma no mundo, e seu comportamento muda de modo correspondente. O psicólogo pode afirma, certamente, que essas mudanças são menores do que aparentam ser, que existe uma grande massa do inconsciente que não muda, e que as mudanças relativamente pequenas do comportamento, que geralmente se seguem à conversão intelectual, testemunham esse fato. Mesmo assim, o fenômeno de reorganização intelectual é importante e acontece a todos nós, e de maneiras muito menos espetaculares do que a conversão religiosa.
A natureza dramática e repentina dessas reorganizações decorre do fato de que nossa imagem é em si mesma resistente à mudança. Quando ela recebe mensagens que estão em conflito com ela, seu primeiro impulso é rejeitá-las como falsas. Suponhamos, por exemplo, que alguém nos revela algo que é inconsistente com nosso conceito de uma certa pessoa. Nossa primeira reação é rejeitar a informação fornecida como falsa. Quando continuamos a receber mensagens que contradizem o conceito original, começamos a ter dúvidas, até que um dia recebemos uma determinada mensagem que derruba de uma vez aquele conceito, obrigando-nos a revisá-lo completamente. A pessoa que tínhamos como amiga sincera pode ser agora vista como hipócrita e falsa.
...
Talvez devêssemos adicionar um quarto impacto possível que as mensagens podem ter sobre a imagem. A imagem tem uma certa dimensão ou qualidade de certeza ou incerteza, probabilidade ou improbabilidade, clareza ou imprecisão. Nossa imagem do mundo não é uniformemente certa, uniformemente provável nem uniformemente clara. Os efeitos das mensagens não são limitados a adições ou reorganizações da imagem. Elas podem esclarecê-la, isto é, fazer que uma coisa tida anteriormente como menos certa torne-se mais certa, ou fazer alguma coisa vista vagamente ficar mais clara.
...
A estrutura de conhecimento subjetivo ou imagem de qualquer indivíduo ou organização consiste não apenas de imagens de "fato" mas também de imagens de "valor". Devemos submeter o conceito de "fato" a um escrutínio cuidadoso ao longo de nosso estudo. Enquanto isso, porém, está claro que existe uma certa diferença entre a imagem que eu tenho de objetos físicos-- situados no espaço e tempo-- e os valores que eu atribuo a esses objetos ou aos eventos nos quais eles são envolvidos. É claro que existe uma certa diferença entre , digamos, minha imagem da Universidade de Stanford existente em um certo ponto do espaço e do tempo, e minha imagem do valor da Universidade de Stanford. ...
A imagem de valor é ligada à classificação das várias partes da imagem, de acordo com alguma escala de melhor e pior. Todos nós possuímos uma ou mais dessas escalas. É o que os economistas chamam de função de bem estar.Ela não se aplica a todo o universo. Por exemplo, no momento atual nós não consideramos Júpiter um planeta melhor do que Saturno. Nós construímos escalas de valor para medir aquelas partes do universo que se encontram mais perto de nós. Alé disso, nós mudamos essas escalas de valor em resposta às mensagens que recebemos, da mesma forma como mudamos a nossa imagem do mundo ao redor de nós. Certamente a maioria das pessoas possui não apenas uma mas várias escalas para propósitos diferentes. Por exemplo, posso dizer que A é melhor para mim do que B mas é pior para o país, ou que é melhor para o país mas pior para o mundo como um todo. A noção de hierarquia de escalas é muito importante para estudar o efeito das mensagens sobre as próprias escalas.
Uma das proposições mais importantes desta teoria é que as escalas de valores das pessoas e das organizações constituem os elementos mais importantes que determinam o efeito das mensagens recebidas por elas sobre suas imagens do mundo. Se uma mensagem não é percebida como boa ou ruim, ela terá pouco ou nenhum efeito sobre a imagem. Se for percebida como ruim ou hostil para a imagem sustentada, haverá resistência a sua aceitação. Geralmente essa resistência não é ilimitada. Uma mensagem repetida freqüentemente ou uma mensagem que vem com grande força ou autoridade é capaz de penetrar a resistência e alterar a imagem. ... Quando as resistências são muito fortes, podem ser necessárias mensagens muito fortes ou muitas repetições para penetrá-la e, quando afinal isso acontece, o efeito é um realinhamento ou reorganização de toda a estrutura do conhecimento.
Por outro lado, as mensagens favoráveis à imagem do mundo existente são recebidas facilmente e mesmo que elas acarretem pequenas modificações da estrutura cognitiva, não haverá nenhuma reorganização fundamental. Tais mensagens não terão impacto algum sobre a estrutura do conhecimento ou então o impacto será apenas uma adição ou acréscimo. Essas mensagens podem ter o efeito de aumentar a estabilidade, quer dizer, a resistência a mensagens desfavoráveis que a estrutura do conhecimento possui.
...
Mesmo ao nível da simples--ou supostamente simples--percepção sensorial, estamos descobrindo cada vez mais que as próprias mensagens que nos chegam através dos sentidos são mediadas através de um sistema de valores. Não percebemos os dados brutos dos sentidos; eles são filtrados através de um processo elaborado de interpretação e aceitação. Quando o tamanho aparente de um objeto cresce na retina do olho, nós não interpretamos isso como aumento das suas dimensões e sim como movimento de aproximação. Na realidade, nós lidamos bem com o mundo porque consistentemente e persistentemente rejeitamos as evidências diretas dos nossos sentidos. A vara na água não está torta, o filme não é uma sucessão de fotos imóveis, e assim por diante.
O que isso significa é que para qualquer organismo individual ou organização, não existem essas coisas chamadas "fatos". Existem apenas mensagens filtradas através de um sistema de valores sujeito a mudanças. Esta proposição pode parecer surpreendente. Apesar disso, ela é inerente à visão das coisas que estou propondo. Ela não implica, no entanto, que a imagem do mundo que um indivíduo possui é uma coisa puramente privada nem que todo conhecimento é subjetivo, no sentido em que eu usei essa palavra. Parte de nossa imagem do mundo é a crença de que essa imagem é partilhada por outras pessoas como nós, que também fazem parte de nossa imagem do mundo.
...
Resumindo, minha teoria poderia ser chamada uma teoria orgânica do conhecimento. Sua proposição mais fundamental é que conhecimento é aquilo que alguém ou algo conhece e que o conhecimento sem um conhecedor é um absurdo. Além disso, argumento que o crescimento do conhecimento é o crescimento de uma estrutura orgânica. Não estou sugerindo aqui que o conhecimento seja apenas um arranjo de circuitos neuronais ou células do cérebro, ou qualquer outra coisa do gênero. Na questão da relação entre a estrutura física e química de um organismo e sua estrutura cognitiva, estou predisposto a ser agnóstico. ... Quando eu digo que o conhecimento é uma estrutura orgânica, quero dizer que ele segue princípios de crescimento e desenvolvimento semelhantes àqueles com os quais estamos familiarizados em organizações e organismos complexos. Em todo organismo ou organização existem fatores tanto internos quanto externos que afetam o crescimento. O crescimento se processa através de uma espécie de metabolismo. Mesmo no caso das estruturas cognitivas, temos certas entradas e saídas de mensagens. No caso da estrutura cognitiva, porém, existem violações importantes das leis da conservação. A acumulação do conhecimento não é meramente a diferença entre mensagens recebidas e mensagens enviadas. Não é como um reservatório; é antes como uma organização que cresce através de um princípio ativo interno de organização, da mesma forma que o gene é um princípio ou entidade que organiza o crescimento das estruturas corporais. O gene, mesmo no sentido físico-químico, pode ser imaginado como um professor interno impondo sua própria forma e "vontade" à matéria informe ao seu redor. No crescimento das imagens, também, podemos supor modelos similares. O conhecimento desenvolve-se também por causa dos professores internos e das mensagens externas. Como todo bom professor sabe, o negócio de ensinar não consiste em penetrar as defesas dos alunos pela violência ou potência das mensagens do professor. Consiste, na verdade, em cooperação com o próprio professor interno do aluno, através da qual a imagem do aluno pode crescer em conformidade com aquela de seu professor externo. A existência de conhecimento público depende portanto de certas semelhanças básicas entre os seres humanos. É literalmente porque nós temos o mesmo "sangue", isto é, constituição genética, que somo capazes de nos comunicarmos uns com os outros. Não somos capazes de falar com formigas e abelhas; não conseguimos conversar com elas, mesmo que, de uma forma muito real, elas comuniquem para nós.
Eu não apenas me localizo no espaço, eu me localizo também no tempo. Sei que vim para a Califórnia há cerca de um ano, e que partirei em cerca de três semanas. Sei que morei em vários lugares diferentes em tempos diferentes. Sei que há cerca de dez anos uma grande guerra chegou ao fim e que há uns quarenta anos atrás outra grande guerra terminou. Algumas datas são significativas: 1776, 1620, 1066. Tenho uma imagem em minha mente do processo de formação da terra, da longa história do tempo geológico, da breve história da humanidade. As grandes civilizações do passado passam diante da minha tela mental. Muitas das imagens são vagas, mas a Grécia vem depois de Creta, Roma vem depois da Assíria.
Eu não tenho apenas um lugar no espaço e no tempo, eu me coloco num campo de relações pessoais. Eu não apenas sei onde e quando eu estou, eu sei até certo ponto quem eu sou. Eu sou um professor em uma grande universidade pública. Isso quer dizer que em Setembro eu irei para uma sala de aula e espero encontrar alguns alunos nela e começarei a falar para eles, e ninguém vai se surpreender com isso. Eu espero, o que é talvez ainda mais agradável, que os cheques do meu salário chegarão regularmente da universidade. Eu espero que quando abrir minha boca em certas ocasiões as pessoas irão ouvir. Eu sei, além disso, que eu sou um marido e um pai, que exitem pessoas que reagirão a mim com afeto e aos quais eu reagirei de modo semelhante. Sei também que tenho amigos, que existem casas aqui, ali e em toda parte, às quais eu posso ir e onde serei bem-vindo e reconhecido e recebido como hóspede. Eu pertenço a várias associações. Existem lugares onde eu vou, e será reconhecido que se espera que eu me comporte de certa maneira. Eu posso me sentar para adorar, posso fazer um discurso, posso ouvir um concerto, posso fazer várias espécies de coisas.
Eu não só estou localizado no espaço, no tempo e em relacionamentos pessoais, eu também estou localizado no mundo da natureza, num mundo de como as coisas funcionam. Sei que quando entro no meu carro existem certas coisas que devo fazer para dar a partida; algumas coisas que devo fazer para sair do estacionamento; algumas coisas que devo fazer para dirigir até minha casa. Sei que se pular de um lugar alto provavelmente vou me machucar. Sei que existem algumas coisas que não são boas para eu comer ou beber. Sei que certas precauções são recomendáveis para manter uma boa saúde. Sei que se me inclinar demais para trás em minha cadeira, enquanto estou aqui sentado diante de minha escrivaninha, provavelmente levarei um tombo. Vivo, em outras palavras, em um mundo de relações razoavelmente estáveis, um mundo de "se" e "então", de "se eu fizer isto, então aquilo vai acontecer."
Finalmente, estou localizado no meio de um mundo de percepções e emoções sutis. Às vezes estou eufórico, às vezes um pouco deprimido, às vezes feliz, às vezes triste, às vezes inspirado, às vezes pedante. Estou aberto a percepções sutis de uma presença além do mundo do espaço, do tempo e dos sentidos.
Tudo aquilo de que venho falando até agora é conhecimento. Conhecimento talvez não seja uma boa palavra para isso. Talvez fosse melhor falar de minha Imagem do mundo. Conhecimento tem uma implicação de validade, de verdade. Eu estou falando daquilo que eu acredito ser verdade, meu conhecimento subjetivo. É essa Imagem que geralmente governa meu comportamento. Em cerca de uma hora eu me levantarei, sairei de meu esscritório, irei para o carro, seguirei até minha casa, brincarei com as crianças, comerei o jantar, talvez leia um livro, irei para a cama. Posso predizer esse comportamento com um precisão razoável por causa do conhecimento que tenho: o conhecimento de que tenho uma casa não muito distante, à qual estou acostumado a ir. É claro que a previsão pode não se realizar. Pode haver um terremoto, posso sofrer um acidente com o carro no caminho, ao chegar em casa posso descobrir que minha família saiu inesperadamente. Centenas de coisas podem acontecer. Quando cada uma dessas coisas acontece, no entanto, ela altera a estrutura do meu conhecimento ou da minha imagem. E quando a minha imagem muda, eu me comporto de acordo com isso. A primeira tese deste trabalho, portanto, é que o comportamento depende da imagem.
O que, então, determina a imagem? Esta é a questão central deste trabalho. Não é uma questão que ele poderá responder. Mesmo assim, as respostas que eu puder oferecer serão fundamentais para a compreensão de como a vida e a sociedade funcionam realmente. Uma coisa é clara. A imagem é construída como um resultado de todas as experiências passadas do dono da imagem. Parte da imagem é a história da própria imagem. Em um certo estágio a imagem, creio eu, consiste apenas em borrões e movimentos indistintos. A partir do nascimento, senão antes, existe um fluxo constante de mensagens penetrando no organismo através dos sentidos. No começo podem ser apenas meras luzes e ruídos indistintos. À medida que a criança cresce, porém, ele gradativamente vão sendo distinguidos como pessoas e objetos. Ela começa a perceber a si mesma como um objeto no meio de um mundo de objetos. A imagem consciente tem assim seu princípio. Na infância o mundo é uma casa, talvez algumas ruas e um parque. Quando a criança cresce mais, sua imagem do mundo se expande. Ela se vê em uma cidade, um país, um planeta. Vê a si mesma em uma rede cada vez mais complexa de relações pessoais. Cada vez que uma nova mensagem chega a ela, é provável que sua imagem seja alterada por ela de alguma forma, e à medida que a imagem muda, seus padrões de comportamento de forma correspondente.
Precisamos distinguir cuidadosamente a imagem das mensagens que chegam a ela. As mensagens consistem em informações no sentido em que são experiências estruturadas. O significado de uma mensagem é a mudança que ela produz na imagem.
Quando uma mensagem atinge uma imagem pode acontecer uma de três coisas. Primeiro, a imagem pode permanecer indiferente. Se pensarmos na imagem como uma estrutura dispersa, semelhante a uma molécula, podemos imaginar que a mensagem passou direto sem bater em nada. Isto é o que acontece com a grande maioria das mensagens. Estou constantemente recebendo mensagens, por exemplo, dos meus olhos e ouvidos, enquanto estou sentado a minha mesa, mas essas mensagens são ignoradas por mim. Existe, por exemplo, um barulho de carpinteiros trabalhando. Eu sei, porém que um edifício está sendo construído nas redondezas e o fato de ouvir esse barulho não acrescenta nada a essa imagem. Na verdade, eu nem escuto o barulho a menos que me esforce para ouvi-lo, de tanto que me acostumei a ele. Quando o barulho para, porém, eu o percebo. Esta informação muda minha imagem do universo. Percebo que já são cinco horas e que é hora de ir para casa. A imagem despertou minha atenção, por assim dizer, para a minha posição no tempo, e eu fiz uma nova avaliação dessa posição. Este é o segundo efeito possível ou impacto que a mensagem exerce sobre a imagem. Pode mudar a imagem de uma forma regular e bem definida, que pode ser descrita como uma simples adição. Suponhamos, por exemplo, para voltar a um exemplo anterior, que eu consulte um atlas e descubra exatamente a relação entre Nyasaland e Tanganyika. Eu teria feito uma adição ao meu conhecimento ou à minha imagem; não terei, porém, feito nenhuma revisão fundamental nela. Eu ainda retrato o mundo quase como eu o retratava anteriormente. Alguma coisa que estava mais vaga antes tornou-se agora mais clara.
Existe, porém, um terceiro tipo de mudança da imagem que pode ser descrita como uma mudança revolucionária. Algumas vezes a mensagem atinge alguma espécie de núcleo ou estrutura de suporte da imagem, e a coisa toda muda radicalmente. Um exemplo espetacular dessa mudança é a conversão. Uma pessoa pode se achar muito correta e, de uma hora para outra, ouve um pregador que a convence de que na verdade aquela vida, com a qual ela estava antes muito satisfeita, é vazia e não tem nenhum valor. As palavras do pregador provocam uma reformulação radical da imagem que a pessoa tem de si mesma no mundo, e seu comportamento muda de modo correspondente. O psicólogo pode afirma, certamente, que essas mudanças são menores do que aparentam ser, que existe uma grande massa do inconsciente que não muda, e que as mudanças relativamente pequenas do comportamento, que geralmente se seguem à conversão intelectual, testemunham esse fato. Mesmo assim, o fenômeno de reorganização intelectual é importante e acontece a todos nós, e de maneiras muito menos espetaculares do que a conversão religiosa.
A natureza dramática e repentina dessas reorganizações decorre do fato de que nossa imagem é em si mesma resistente à mudança. Quando ela recebe mensagens que estão em conflito com ela, seu primeiro impulso é rejeitá-las como falsas. Suponhamos, por exemplo, que alguém nos revela algo que é inconsistente com nosso conceito de uma certa pessoa. Nossa primeira reação é rejeitar a informação fornecida como falsa. Quando continuamos a receber mensagens que contradizem o conceito original, começamos a ter dúvidas, até que um dia recebemos uma determinada mensagem que derruba de uma vez aquele conceito, obrigando-nos a revisá-lo completamente. A pessoa que tínhamos como amiga sincera pode ser agora vista como hipócrita e falsa.
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Talvez devêssemos adicionar um quarto impacto possível que as mensagens podem ter sobre a imagem. A imagem tem uma certa dimensão ou qualidade de certeza ou incerteza, probabilidade ou improbabilidade, clareza ou imprecisão. Nossa imagem do mundo não é uniformemente certa, uniformemente provável nem uniformemente clara. Os efeitos das mensagens não são limitados a adições ou reorganizações da imagem. Elas podem esclarecê-la, isto é, fazer que uma coisa tida anteriormente como menos certa torne-se mais certa, ou fazer alguma coisa vista vagamente ficar mais clara.
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A estrutura de conhecimento subjetivo ou imagem de qualquer indivíduo ou organização consiste não apenas de imagens de "fato" mas também de imagens de "valor". Devemos submeter o conceito de "fato" a um escrutínio cuidadoso ao longo de nosso estudo. Enquanto isso, porém, está claro que existe uma certa diferença entre a imagem que eu tenho de objetos físicos-- situados no espaço e tempo-- e os valores que eu atribuo a esses objetos ou aos eventos nos quais eles são envolvidos. É claro que existe uma certa diferença entre , digamos, minha imagem da Universidade de Stanford existente em um certo ponto do espaço e do tempo, e minha imagem do valor da Universidade de Stanford. ...
A imagem de valor é ligada à classificação das várias partes da imagem, de acordo com alguma escala de melhor e pior. Todos nós possuímos uma ou mais dessas escalas. É o que os economistas chamam de função de bem estar.Ela não se aplica a todo o universo. Por exemplo, no momento atual nós não consideramos Júpiter um planeta melhor do que Saturno. Nós construímos escalas de valor para medir aquelas partes do universo que se encontram mais perto de nós. Alé disso, nós mudamos essas escalas de valor em resposta às mensagens que recebemos, da mesma forma como mudamos a nossa imagem do mundo ao redor de nós. Certamente a maioria das pessoas possui não apenas uma mas várias escalas para propósitos diferentes. Por exemplo, posso dizer que A é melhor para mim do que B mas é pior para o país, ou que é melhor para o país mas pior para o mundo como um todo. A noção de hierarquia de escalas é muito importante para estudar o efeito das mensagens sobre as próprias escalas.
Uma das proposições mais importantes desta teoria é que as escalas de valores das pessoas e das organizações constituem os elementos mais importantes que determinam o efeito das mensagens recebidas por elas sobre suas imagens do mundo. Se uma mensagem não é percebida como boa ou ruim, ela terá pouco ou nenhum efeito sobre a imagem. Se for percebida como ruim ou hostil para a imagem sustentada, haverá resistência a sua aceitação. Geralmente essa resistência não é ilimitada. Uma mensagem repetida freqüentemente ou uma mensagem que vem com grande força ou autoridade é capaz de penetrar a resistência e alterar a imagem. ... Quando as resistências são muito fortes, podem ser necessárias mensagens muito fortes ou muitas repetições para penetrá-la e, quando afinal isso acontece, o efeito é um realinhamento ou reorganização de toda a estrutura do conhecimento.
Por outro lado, as mensagens favoráveis à imagem do mundo existente são recebidas facilmente e mesmo que elas acarretem pequenas modificações da estrutura cognitiva, não haverá nenhuma reorganização fundamental. Tais mensagens não terão impacto algum sobre a estrutura do conhecimento ou então o impacto será apenas uma adição ou acréscimo. Essas mensagens podem ter o efeito de aumentar a estabilidade, quer dizer, a resistência a mensagens desfavoráveis que a estrutura do conhecimento possui.
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Mesmo ao nível da simples--ou supostamente simples--percepção sensorial, estamos descobrindo cada vez mais que as próprias mensagens que nos chegam através dos sentidos são mediadas através de um sistema de valores. Não percebemos os dados brutos dos sentidos; eles são filtrados através de um processo elaborado de interpretação e aceitação. Quando o tamanho aparente de um objeto cresce na retina do olho, nós não interpretamos isso como aumento das suas dimensões e sim como movimento de aproximação. Na realidade, nós lidamos bem com o mundo porque consistentemente e persistentemente rejeitamos as evidências diretas dos nossos sentidos. A vara na água não está torta, o filme não é uma sucessão de fotos imóveis, e assim por diante.
O que isso significa é que para qualquer organismo individual ou organização, não existem essas coisas chamadas "fatos". Existem apenas mensagens filtradas através de um sistema de valores sujeito a mudanças. Esta proposição pode parecer surpreendente. Apesar disso, ela é inerente à visão das coisas que estou propondo. Ela não implica, no entanto, que a imagem do mundo que um indivíduo possui é uma coisa puramente privada nem que todo conhecimento é subjetivo, no sentido em que eu usei essa palavra. Parte de nossa imagem do mundo é a crença de que essa imagem é partilhada por outras pessoas como nós, que também fazem parte de nossa imagem do mundo.
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Resumindo, minha teoria poderia ser chamada uma teoria orgânica do conhecimento. Sua proposição mais fundamental é que conhecimento é aquilo que alguém ou algo conhece e que o conhecimento sem um conhecedor é um absurdo. Além disso, argumento que o crescimento do conhecimento é o crescimento de uma estrutura orgânica. Não estou sugerindo aqui que o conhecimento seja apenas um arranjo de circuitos neuronais ou células do cérebro, ou qualquer outra coisa do gênero. Na questão da relação entre a estrutura física e química de um organismo e sua estrutura cognitiva, estou predisposto a ser agnóstico. ... Quando eu digo que o conhecimento é uma estrutura orgânica, quero dizer que ele segue princípios de crescimento e desenvolvimento semelhantes àqueles com os quais estamos familiarizados em organizações e organismos complexos. Em todo organismo ou organização existem fatores tanto internos quanto externos que afetam o crescimento. O crescimento se processa através de uma espécie de metabolismo. Mesmo no caso das estruturas cognitivas, temos certas entradas e saídas de mensagens. No caso da estrutura cognitiva, porém, existem violações importantes das leis da conservação. A acumulação do conhecimento não é meramente a diferença entre mensagens recebidas e mensagens enviadas. Não é como um reservatório; é antes como uma organização que cresce através de um princípio ativo interno de organização, da mesma forma que o gene é um princípio ou entidade que organiza o crescimento das estruturas corporais. O gene, mesmo no sentido físico-químico, pode ser imaginado como um professor interno impondo sua própria forma e "vontade" à matéria informe ao seu redor. No crescimento das imagens, também, podemos supor modelos similares. O conhecimento desenvolve-se também por causa dos professores internos e das mensagens externas. Como todo bom professor sabe, o negócio de ensinar não consiste em penetrar as defesas dos alunos pela violência ou potência das mensagens do professor. Consiste, na verdade, em cooperação com o próprio professor interno do aluno, através da qual a imagem do aluno pode crescer em conformidade com aquela de seu professor externo. A existência de conhecimento público depende portanto de certas semelhanças básicas entre os seres humanos. É literalmente porque nós temos o mesmo "sangue", isto é, constituição genética, que somo capazes de nos comunicarmos uns com os outros. Não somos capazes de falar com formigas e abelhas; não conseguimos conversar com elas, mesmo que, de uma forma muito real, elas comuniquem para nós.
29/11/2008
"Black Friday"
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Estamos ensaiando para os dias em que seremos piores.
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A corrida começa. As portas se abrem. Uma multidão inebriada com o cheiro de coisas novas apressa-se em busca do consumo.
Black Friday (Sexta-feira Negra)é como os norte americanos denominam o primeiro dia de compras de fim de ano, no qual tarjas pretas são colocadas em produtos que estão em promoção.
O cheiro alucinogéno das compras acompanhado de um desejo alienado levou, sei lá quantas, dezenas de pessoas a pisotearem um homem que trabalhava em uma grande rede de varejo em Nova York.
Diante de tal acontecimento e lembrando dos prognósticos negativos das equipes econômicas dos governos, as manchetes dos jornais perguntam: Onde está a crise?
Onde está a crise? Será que é isso que deveríamos nos perguntar neste momento?
O caso desta Black Friday aponta para uma crise muito mais profunda, uma crise de humanidade, de consciência e de clemência.
E ao observar todas as principais manchetes desta última sexta-feira, tanto as nacionais quanto as internacionais, sugerem o mesmo indicativo: muitas tarjas pretas ainda serão colocadas, muito preto ainda será usado e outras Black Fridays virão.
Estamos ensaiando para os dias em que seremos piores.
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A corrida começa. As portas se abrem. Uma multidão inebriada com o cheiro de coisas novas apressa-se em busca do consumo.
Black Friday (Sexta-feira Negra)é como os norte americanos denominam o primeiro dia de compras de fim de ano, no qual tarjas pretas são colocadas em produtos que estão em promoção.
O cheiro alucinogéno das compras acompanhado de um desejo alienado levou, sei lá quantas, dezenas de pessoas a pisotearem um homem que trabalhava em uma grande rede de varejo em Nova York.
Diante de tal acontecimento e lembrando dos prognósticos negativos das equipes econômicas dos governos, as manchetes dos jornais perguntam: Onde está a crise?
Onde está a crise? Será que é isso que deveríamos nos perguntar neste momento?
O caso desta Black Friday aponta para uma crise muito mais profunda, uma crise de humanidade, de consciência e de clemência.
E ao observar todas as principais manchetes desta última sexta-feira, tanto as nacionais quanto as internacionais, sugerem o mesmo indicativo: muitas tarjas pretas ainda serão colocadas, muito preto ainda será usado e outras Black Fridays virão.
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